segunda-feira, 23 de agosto de 2010

AJUDADA

"... serviços ou tarefas não renumeradas."


Antigamente na Conceição de Faro, eram muito comuns as "Ajudadas".

As ajudadas eram serviços ou tarefas não renumeradas. Faziam-se com a ajuda dos vizinhos, familiares, amigos e conhecidos.

Eram famosas as grandes "ajudadas" para escarapelar o milho, de tal forma que a escarapelada era designada unicamente por "Ajudada".

Dizia-se, fulano dá uma ajudada tal dia e lá estavam todos, para a festa.

Nas casas mais ricas para além de comida e bebida no final até baile tinha.

Haviam pessoas que andavam de ajudada em ajudada, de festa em festa para poder comer e beber á vontade.

Tal como diz o poeta:

Eu por mim devo confessar
Estou nesta festa por gosto!
Comer, beber e bailar
Põe-me sempre bem disposto!

E punha!

Participando em muitas "escarapelas" de milho tento descrever uma ajudada, tal como a recordo.

Estas ajudadas tinham lugar em finais de Agosto inicio de Setembro quando o milho recolhido da horta já estava amontoado num largo junto á casa. O proprietário marcava o dia da ajudada e a informação passava de pessoa em pessoa.

Depois do jantar as pessoas chegavam para a ajudada sentando-se ao lado umas das outras. Á sua frente mesmo junto a si, as massarocas por escarapelar. Agarrando na massaroca com uma das mãos, com a outra mão retiravam-lhe a "carepa" que colocavam atrás das costas. As massarocas eram atiradas para se amontoar na frente dos ajudantes.
Gestos hábeis, maquinais que se repetiam automaticamente centenas de vezes ao longo da noite quase sem olhar.

De vez em quando alguém da casa, percorria a longa fila de ajudantes oferecendo um copo de aguardente aos homens e anis ou amêndoa amarga ás mulheres. Com o decorrer do trabalho e a bebida as pessoas iam-se desinibindo e ás tantas já contavam histórias um pouco picantes. Era uma festa!

Um dos costumes convencionava que aquele ou aquela que encontrasse uma massaroca de milho roxo teria direito a um beijo da pessoa presente que escolhesse.
Quando a sorte fazia com que alguém encontrasse o tal milho roxo, algumas pessoas exibiam imediatamente a massaroca olhando para a pessoa escolhida á espera do consentimento para avançar para o beijo.

Outras pessoas escondendo o achado levantam-se indo disfarçadamente para junto da pessoa da qual pretendiam o beijo, chegando a dar-lhe o beijo de surpresa e só depois mostrar o milho roxo.

Risada geral, todos brincavam comentando o acontecido.

Por mim que fui a muitas destas ajudadas nunca tive a sorte de encontrar o tal milho roxo, no entanto desforrava-me sempre na batata doce assada, no peixe frito e no baile que a maior parte das vezes era improvisado ao som de uma simples gaita de beiços.
Mas baile é baile, desde que tivesse par, ninguém me parava!

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JJ Rodrigues