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sábado, 6 de dezembro de 2014

VARRER O TESO


Nas minhas deambulações pelo passado da aldeia de Conceição de Faro volto hoje ao baile do Mariano que mais tarde foi do senhor Manuel, para falar da famosa dança de "varrer o teso".

Varrer o teso era uma dança viril, só para homens que em parelhas agarrados pelos braços, tentavam derrubar as outras parelhas participantes com uma varridela de pernas, enquanto rodopiavam pela sala ao som do corridinho.

As parelhas iam sendo eliminadas à medida que eram derrubadas, ficando para o fim os mais ágeis que se esquivavam das varridelas ou mesmo que atingidos não eram derrubados.

O objectivo final seria o de encontrar a parelha vencedora que naturalmente era a única que se manteria de pé até ao fim, para depois ser aclamada e aplaudida por todos.

Esta dança que era por demais conhecida causava sempre um grande alvoroço na sala e todos os que não participavam apressavam-se a pôr a salvo, nas últimas filas da bancada, para não ser atingidos nas quedas dos que iam sendo derrubados.

"baile da Conceição" não era o único que sempre terminava com esta dança, mas neste baile foi famosa e habitual durante muitos anos.

Foram muitas as parelhas de homens que aqui vinham à procura de fama, mas houve uma, constituída por dois irmãos naturais da Conceição de Faro que se distinguiu como grande campeã. 

Estou a falar do José Cardoso que emparelhado com o seu irmão João eram imbatíveis no varrer do teso vencendo todos os que se arriscavam a defrontá-los. 

Os irmãos que combinavam perfeitamente nos movimentos, tinham  grande agilidade e destreza, para além de muita força de pernas, tornando-se impossível derrubá-los.

Mercê da sua invencibilidade os dois irmãos ganharam fama, admiração e respeito, não só na Conceição de Faro mas  por  todas as redondezas, pelo que amiúdas vezes surgiam homens de outras localidades para os tentar derrotar mas que conste, nunca o conseguiram.


quarta-feira, 26 de novembro de 2014

TROCADILHO



Hoje, vou falar de "trocadilho", ou seja, quando se fala de alhos a pronta resposta vem referida a "bogalhos"!

Há pessoas assim, têm sempre o trocadilho pronto na ponta da língua, seja qual fôr a ocasião.

Por outro lado existem outras pessoas que não gostam nem compreendem o trocadilho, chegando mesmo a levar a mal quando a resposta em geito de brincadeira, vem trocada.

Por vezes o que se pretende ser uma brincadeira acaba por resultar em "zanga".

Cabe aqui uma pequena história que ocorreu na Conceição de Faro há alguns anos  atrás entre o "mestre" Zé e a "ti" Margarida.

O mestre Zé, homem de meia-idade, bem disposto e brincalhão, não perde a oportunidade para um bom trocadilho que lhe sai quase instintivamente bastante a propósito.

A "ti" Margarida sensivelmente da mesma idade era uma mulher bastante atraente.

Um dia, mestre Zé que passeava pelo campo com os seus dois cães, foi surpreendido pela tia Margarida que ao encontrá-lo, disse:

-Ah, este homem é mesmo parecido com o meu marido, no geito de andar, na altura, no vestir, até no pôr do chapéu!

Ao que o mestre Zé prontamente de forma brincalhona, retorquiu: -Veja lá se até no pôr do chapéu!?...

"O pôr do chapéu" foram as últimas palavras ouvidas dando  o mote ao infeliz trocadilho que não agradou à mulher que rapidamente se afastou proferindo alguns impropérios.

Espantado com a reacção inesperada mestre Zé deu-se conta que a  brincadeira poderia ter ofendido a dignidade da mulher sugerindo que o marido não conseguiria colocar o chapéu como o dele, devido a alguma infidelidade conjugal que lhe adornasse a cabeça.

Aqui está o exemplo simples como um inocente trocadilho pode causar uma grande complicação!

Por mim continuarei a brincar e fazer trocadilhos sempre que a oportunidade se proporcionar!


domingo, 2 de fevereiro de 2014

NEVE NA CONCEIÇÃO



Faz hoje precisamente 60 anos que nevou pela última vez na Conceição de Faro.

A data é inesquecível para aqueles que viveram este acontecimento único na vida da nossa aldeia.

Simbolicamente costumamos dizer que a nossa neve, são as flores de amendoeira que a partir de meados de Janeiro cobrem de branco os nossos campos.

Neve a sério só neste lembrado "Dia de Santa Maria", Terça-Feira, 2 de Fevereiro de 1954.

Dia extremamente frio, a neve começou a cair já no fim da tarde e o fenómeno durou cerca de hora e meia a duas horas tempo suficiente para que tudo ficasse coberto de branco.

Como acontecia quase todas as tardes um grupo de rapazes jogava à bola no adro da igreja quando começaram a cair estes tão desconhecidos como inesperados flocos de neve e isso gravou-se-lhes na memória pelo que alguns ainda recordam esse dia, até agora, único nas suas vidas.

Imagino que não só os que jogavam à bola no largo da igreja se recordam mas certamente todos os que viveram este dia estarão lembrados da única vez que viram nevar na Conceição de Faro, por isso se porventura alguém que viveu este dia e quiser dar uma "achega" ao assunto, não hesite e conte-nos o que se lembra.

Desde já o meu obrigado e bom "Dia de Santa Maria" para todos!

quinta-feira, 27 de junho de 2013

O CU DO BURRO


No tempo em que a maioria dos trabalhos rurais se faziam á custa destes dóceis mas valentes animais, contava-se na Conceição de Faro que certo dia, um homem que seguia atrás do seu burro, ia retirando de uma das suas algibeiras, os figos torrados que lhe serviam de refeição matinal.

Quando por vezes encontrava algum figo, um pouco mais queimado da torra, atirava-o á traseira do burro naturalmente que alguns acertavam no cu do burro outros não.

 O homem tinha esta atitude porque pensava que trazia consigo figos que chegavam e sobravam para as suas necessidades do momento.

Mas aconteceu que no final do dia, ao regressar pelo mesmo caminho, cheio de fome e já sem figos na algibeira, ia apanhando do chão e comendo, aqueles que de manhã havia atirado ao traseiro do burro.

Naquela altura era-lhe impossível saber quais os figos que tinham ou não acertado no animal, por isso, limitava-se a apanhá-los do chão, passando-os pelo seu próprio vestuário para lhes retirar alguma poeira, comia-os. Sabiam-lhe bem!

Para acalmar alguma repulsa pelo facto de os comer depois de os ter atirado ao animal, pensava para si: "-Estes não passaram pelo cu do burro!"

Também nós agora estamos a usar algumas coisas que na fartura de um passado recente atirámos para o esquecimento mas que o tempo e as actuais necessidades nos obrigam a socorrer do que dantes desprezámos!

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A PEDRA


A propósito da "Pedra" que há muitos anos está colocada á entrada do que é hoje o Café da Antónia, o Ludgero Urbano fez chegar-me ás mãos um extracto do Jornal Correio Meridional, de 15 de Abril de 2001, onde o professor Honorato Ricardo, falava desta pedra.

O professor também confirma que o único homem na Conceição de Faro que alguma vez levantou a "Pedra" foi o Joaquim Cardoso que era pedreiro de profissão.

Apesar de muitos o tentarem, não consta que mais algum tivesse conseguido sozinho levantar esta já famosa pedra que continua impávida e serena, no seu lugar de sempre.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

PADRE SALOMAO

(no palco:- Salomão Morgado, José Silvino, José Maria, Anibal Moreno, José Joaquim)

O Manuel Mestre e o José Maria, já me tinham alertado que havia alguém á minha procura e eu intrigado perguntei-lhes quem era, mas comprometidos, eles mantiveram-se calados, na expectativa de me causarem surpresa.

Vi depois aparecerem na porta do clube, o José Silvino, a Graça Sousa e o Virgílio "russo", mas até aí tudo bem, não havia qualquer surpresa, para além de os ver por ali aquela hora da noite.

De súbito vi aparecer á porta, um homem de cabelo e barba grisalha extremamente magro, de voz calma, que aproximando-se de mim me perguntava: -Então já não me conheces? ... estás diferente, o que é feito daquela trunfa toda que tinhas na cabeça? ... não me digas que não me conheces?...

Cumprimentámo-nos sem que eu conseguisse descortinar de quem se tratava. A presença do Virgilio, fazia-me rebuscar na memória os amigos de infância que sabia emigrados em França, mas nenhum deles condizia ... até que ele desfez as minhas dúvidas, dizendo, sou o Salomão, já não te lembras de mim?

Emocionado voltei a cumprimentá-lo, abraçando-o. Claro que me lembrava. Foi há mais de trinta e cinco anos que ele saiu de Conceição de Faro, onde era o pároco.

Uma história triste de incompreensão e intolerância fez com que fosse afastado das funções que exercia na nossa paróquia e consequentemente de Conceição de Faro.

Mais tarde viria também a abandonar a vida sacerdotal, regressando á condição de civil.

Neste breve reencontro aproveitámos para recordar algumas actividades que ele juntamente com o Grupo Cultural e Desportivo, desenvolveu na Casa do Povo, como foram, o teatro e o jornal "Choque".

O José Silvino recordou aquele dia em que o padre Salomão, ao terminar a missa de domingo, se dirigiu para a sua bicicleta e a encontrou sem a roda da frente.
Alguém, para o arreliar, furtara a roda impossibilitando-o de usar a bicicleta motorizada, para o regresso a Faro.

Outro amigo que entretanto chegou para o cumprimentar  recordou que ele lhe tinha baptizado as duas filhas na mesma ocasião gratuitamente. Aliás, era sua pratica corrente, não cobrar ás pessoas com menos condições financeiras, qualquer importância pelos seus serviços.

De recordação em recordação, chegou a hora da despedida, com mais um abraço e um até breve.

Até á próxima amigo Salomão Morgado e obrigado pela visita.

Obrigado também aos amigos que me porporcionaram este belo momento, fiquei deveras emocionado.


sábado, 30 de julho de 2011

MESTRE HERMINIO

"Do tamanho do largo da Igreja ..."



Mestre Hermínio foi um homem que durante grande parte da sua vida se dedicou á construção de noras.

No inicio era pedreiro, mas com o surgimento de muito trabalho nas noras, mestre Hermínio á frente de um pequeno grupo de homens, construía a nora de raiz, isto é, abria o buraco, anelava e fazia todo o trabalho de construção, inclusive o tanque e as levadas.

Fora desta profissão mestre Hermínio era também um recuperador de alcatruzes do fundo das noras, nas quais mergulhava, em apneia, às vezes, a uma profundidade de mais de dez metros, munido de um covo de rede que prendia a uma corda, para alguém cá em cima debruçado no gargalo da nora o puxar, quando lá tivesse colocado os alcatruzes recuperados.

No inverno quando chegava a época da matança dos porcos era também chamado por muita gente, para esta tarefa que executava com mestria.

Alegre, brincalhão, estava sempre pronto para a graça e o trocadilho que rematava com uma curta gargalhada bem sua caracteristica.

Na parte final da sua vida, o vicio pela bebida, afastou-o do trabalho nas noras que também já era escasso, acabando por desempenhar as funções de coveiro, na freguesia.

Também nessa parte da sua vida, passava mais tempo na taberna, do que no trabalho ou na sua própria casa.

Recordo hoje uma das várias graças que se contam a seu respeito que reflecte bem, o seu apurado espírito brincalhão.

Conta-se que certa noite, estando no baile do senhor Manuel, foi dizer á mulher que se ia deitar.

A mulher recomendou-lhe: -Não apagues a luz, põe o candeeiro mais baixo mas não o apagues, para eu não andar ás apalpadelas quando chegar a casa.

Mestre Hermínio, antes de se deitar, cumpriu á letra o pedido da mulher. Baixou o candeeiro aceso mas para debaixo da mesa.

Ao chegar a casa, a mulher irritada com a brincadeira, grita:

-Ah homem que quase deitas fogo á casa!  Então tu pões o candeeiro aceso debaixo da mesa! ... Estás bêbado!?

E em geito de rogada praga:  -Um copo de aguardente deveria custar cinco contos de réis!

Mestre Hermínio, meio estremunhado, levantando ligeiramente  a cabeça, responde: -Sim mulher e deveria ser, do tamanho do largo da igreja!..

Voltando-se para o outro lado adormece novamente ...

quinta-feira, 21 de julho de 2011

MAL EMPREGADA PALHA

"O malandro do Guerreiro bem se divertiu ..."


Ontem á noite numa roda de amigos em que estavam, o mestre Chico, o Manuel Mestre, o Carlos França, o José Faustino, o Martins e eu próprio, a conversa resvalou para o habitual tema, do acesso á auto-estrada que vai atravessar e estragar, as melhores hortas do Besouro, Paço Branco e Campinas.

Tema recorrente e polémico que nos trás a todos preocupados.

De repente o Faustino a propósito de uma declaração de um dos presentes, exclama:

-Mal empregada palha!

Todos sorrimos.

Eu fiquei pensativo porque me lembrava desta frase, mas não me recordava a que propósito. O Faustino vendo que fiquei calado perguntou olhando diretamente para mim:

-Sabes o que quer dizer?

Respondi-lhe que sim, mas não tendo a certeza, continuei apreensivo e na dúvida disse-lhe:

-Eh pá, lembro-me da frase mas não sei bem porquê.

Não sabes?

Lembram-se do "Guerreiro" que morava ali ao pé do Bento Ferradeira?

Toda a gente se lembrava do Guerreiro. O Guerreiro quando alguém o desagradava, atirava~lhe rápidamente com esta frase, tipo sentença:

-Ah, mal empregada palha...

De tal forma repetiu esta sentença que acabou por ganhar a alcunha de "mal empregada palha".

O curioso é que tal como agora toda a gente sorria mas não sabia exactamente o que queria dizer.

Mas o Faustino que ouvira diretamente do Guerreiro, a explicação, acabou com a duvida...

Lembram-se de antigamente quando as porcas prenhas estavam prestes a dar á luz, o dono fazia-lhes uma boa cama de palha para que não houvesse problemas com nascença dos bacorinhos.

Após o parto, o dono analizava as crias e quando por vezes sucedia que não eram tão fortes e bonitas, como o desejado, acabava por exclamar:

- Ah, mal empregada palha ... que naturalmente era a que tinha  gasto para a cama da porca e das suas crias.

 Assim, sem mais nem menos, apenas por outras palavras, o Guerreiro chamava aos seus desafectos, porcos e feios

Rimos novamente. O malandro do Guerreiro, bem se divertiu á custa dos outros. E nós a pensar que ele apenas quereria dizer que "não vales a comida que comes".

Com esta e com outras, não demos pelo tempo passar e já passa da meia-noite. São horas de ir para a cama que amanhã é dia de trabalho.

Despedimo-nos.

E eu despeço-me também até uma próxima história.

domingo, 12 de junho de 2011

BURRICE

"O burro cura-se é debaixo da albarda ..."


Partindo do pressuposto tantas vezes escutado de que "o burro cura-se é debaixo da albarda" aceitei o pedido sugestão da minha mulher para limpar, preparar e armar um bocado de terra no meu quintal.

 Ela pretendia transplantar umas pequenas curgetes que há muito tempo germinaram nuns vasos onde as tinha colocado.

Apesar de ainda não estar curado da hérnia discal que há alguns dias me levou ao endireita, procedi tal como um burro e fiz o trabalho,

Terminei a tarefa já com alguma dificuldade devido ao agravamento da dor da hérnia que me limitava os movimentos.

Vamos ver se por esta imprudência não terei de voltar ao endireita!

Sei agora que quanto aquele dito popular, nada de mais errado!

Nem a albarda nem o trabalho cura!

Tal como afirma um outro ditado popular se o trabalho curasse os doentes do hospital viriam todos trabalhar!

E por hoje chega de ditos populares e de burrices!!!

quinta-feira, 8 de julho de 2010

ADIAFA

"O que vem á rede é peixe..."

Adiafa era a festa oferecida pelo patrão ou dono da obra, para comemorar o final com sucesso, duma tarefa ou trabalho.

Consistia num almoço, lanche ou jantar que por vezes terminava em bailarico, ao som do acordeão ou da gaita de beiços. Também se cantava um fadinho que quase sempre era uma alegre desgarrada, com os mais expeditos a deixarem enrascados aqueles que menos preparados se atreviam a enfrentá-los.

Eram convidados para a Adiafa, todos os que trabalharam para a conclusão da obra ou tarefa.

Habitualmente faziam-se Adiafas na Conceição de Faro, após terminar:

-A apanha da amêndoa e da alfarroba;
-A Escarapela do milho:
-A abertura dum poço, nora ou cisterna;
-O enchimento da placa de cobertura de uma casa;
-A conclusão da obra da própria casa;
-As Festas da Aldeia ;
-A época de actuação da Charola.

A Adiafa era uma forma de compensar todos os que duma forma abnegada, ajudaram trabalhando por vezes, até além do normal.

Hoje, o termo quase caiu em desuso, no entanto nalguns casos, o costume mantém-se embora nomeado simplesmente de almoço ou jantar.

Cabe aqui uma pequena história que ocorreu na nossa aldeia, há alguns anos, numa adiafa.

Nos anos 60 vivia ali para os lados da Chaveca, um homem a quem chamavam "O Lisboa". Se bem me lembro era o companheiro da "ti' Estrudes Cardosa".

O homem, excelente trabalhador embora sem profissão definida era chamado para os mais diversos trabalhos. A pedido dos interessados extraia os calhaus da ribeira que vendia para substituir a pedra, nas massas de betão para as placas das casas, para os anéis das noras ou até para pavimentos.

Certa vez, "O Lisboa" foi convidado para a adiafa de uma obra. O petisco era uma "panelada" de grão, cozido com arroz e carne de porco.

Cerca de uma dezena de convidados, todos sentados, a panela no centro da mesa, cada um ia servindo o seu prato.

Como era uso e costume primeiro comia-se o grão com arroz e no final repartia-se a carne.

Por ser de fora e não estar habituado a estes costumes O Lisboa que foi dos primeiros a servir-se, meteu a colher ao tacho e retirou duma assentada quase toda a carne.

Surpreendido por haver tirado carne, ninguém ainda o tinha feito, declarou sorridente "o que vem á rede é peixe !!!".

O dono da casa que participava da refeição, limitou-se a sorrir e os outros convidados tiveram de se contentar em comer o grão e o arroz, com o cheirinho da carne, no prato do Lisboa.

Valeu-lhes o garrafão cujo vinho ajudou a forrar o estômago!

Escusado será dizer que devido á fama, O Lisboa não voltou a ser convidado para estas adiafas.

sábado, 3 de julho de 2010

MANUEL DO ROSARIO

"Abel vai depressa..."

Hoje de manhã encontrei na aldeia, o meu amigo Manuel do Rosário, conhecido como o "Manel da Filipa".

Manelinho então como é que vai isso, a Chaveca ainda está no mesmo lugar? pergunto-lhe.

Vamos indo, responde ele. E logo se apressa a dizer-me uma das suas repentinas quadras.

Mas antes explica-me a razão do verso. "Há bocado ia a atravessar a rua e alguém grita: -"Vai depressa Abel..." e eu disse-lhe...

Abel vai depressa
Dizem para te apressar
Mas tu não vás nessa,
Vai, mas vai devagar!

Há muitos anos que conheço o Manuel do Rosário, poeta popular, repentista improvisador.

Jogámos á bola, andámos juntos na charola, durante muito tempo fez parte da cantata do rancho folclórico, onde tocava os ferrinhos. O Manuel também participou no Encontro de Poetas Populares que há alguns anos, no âmbito do programa das Festas de Nossa Senhora da Conceição, se organizou na Conceição de Faro.

Sempre ouvi encantado as suas quadras que quase sempre se referem a situações reais, como aquela que dedicou á charola:

Esta Charola tem tudo
Pois até tem um coxo
Tem um careca e um cabeludo
Tem um cornudo e um mocho!

Esta, ao contrário é pura brincadeira:

Tenho azia nas orelhas
Dor de dentes no cachaço
Amargam-me as sobrancelhas
Não vejo nada deste braço!

O Manuel é imbatível nas quadras ao desafio, tem sempre pronta a resposta para tudo! Voz calma, tom não muito alto mas ritmado. No final uma pequena gargalhada termina quase todas as suas quadras.

Certa vez também eu lhe dediquei uma das minhas cestilhas que era mais ou menos assim:

Manuel que és jardineiro
Eu ouço um dia inteiro
Tuas palavras a rimar
Tu versas de improviso
E no momento preciso
Dizes coisas de encantar!

Entretanto o Manuel esboçando a sua caracteristica gargalhada, lá foi á sua vida. Eu fico a pensar no Abel.

O Abel é um polivalente que está ao serviço da Junta de Freguesia. Esforçado, trabalhador, diligente, todos gostam dele.

Na escola primária costumávamos convencê-lo a fazer uma corrida com a promessa de lhe dar um berlinde ou um pião. O Abel abalava sozinho e ficávamos espantados com a sua enorme capacidade de resistência percorrendo uma grande distância aparentemente sem cansaço.

Agora, a idade não perdoa e o Abel sofre de um problema no coração, mas continua activo e disponível como sempre.

Pelo meu lado apresso-me para ir para o trabalho, está quase na hora e ainda estou á porta do Zé Carlos.

Então até logo, despeço-me.

domingo, 27 de junho de 2010

Derriça

Ontem á noite houve festa na aldeia...


Muitas pessoas acorreram ao recinto instalado no adro da igreja, para a sardinhada oferecida pela Junta de Freguesia de Conceição de Faro, o baile, as actuações da Marcha Popular de Bordeira e também de um Grupo de Concertinas oriundos da “zona raiana” de Figueira de Castelo Rodrigo.

Festa bonita, divertida ou seja uma verdadeira Festa Popular.

Oportunidade para dois dedos de conversa com os amigos e quando demos por isso já havíamos formado uma “roda” ali em pleno adro, como nos velhos tempos, íamos falando disto e daquilo, para não dizer deste e daquela até que a conversa resvalou para as recordações de infância.

O Veiga, o Valentim, o Faustino, o Idalécio Pancinha, o Manuel Mestre, eu próprio e mais dois ou três de que agora não me ocorrem os nomes.

Voltámos ao início das nossas vidas ou seja á escola primária. Contam-se, repetem-se histórias, recordam-se nomes, situações inesquecíveis e outras para esquecer.

De repente alguém se lembrou do “Derriça”.

Eh pá quem era o Derriça? Pergunto eu que me recordava do nome mas não da pessoa.

O Idalécio, esclareceu: -Então não te lembras, era filho do “caseiro” da quinta do Outeiro.

Ah, já me lembro já estou a ver a cara dele, confirmo.

O Idalécio ainda recorda. Lembras-te de ir com ele para a quinta, escorregar na barreira em cima de uma tábua, até ao caminho da ribeira?

É claro que me lembrava. Era uma brincadeira que todos adorávamos!

O Veiga recorda um dia em que nos encontrávamos sozinhos na sala e que o Derriça, se lembrou de “mijar” para dentro dos tinteiros. Apertando a ponta da “ferramenta” para não perder a urina percorreu quase todas as carteiras enchendo os tinteiros.

Um cheiro horrível, logo detectado pela velha mestra que ao entrar na sala tratou de saber o que passava e descobriu os tinteiros cheios de "mijo".

Como ninguém se acusa, a mestra não hesita, corrige a travessura com uma boa dose de reguadas dadas naqueles que tinham a urina nos tinteiros.

Miraculosamente ou talvez não o Derriça safa-se deste castigo porque não mijou no seu próprio tinteiro!!!

A "velha mestra" complementa o castigo com a chamada dos pais á escola que por sua vez repetiram em casa, á sua maneira, o tratamento da professora. Ainda tiveram de pagar dez tostões para voltar a repor a tinta.

Foi o chamado dois em um, ou seja, uma travessura e duas correctivas tareias aplicadas á moda, uso e costume daquele tempo.

Entretanto com estas histórias, a noite avança, a festa ainda está animada, mas a roda desfaz-se e cada um recolhe a suas casas, não sem antes alguns irem até ao bar para mais uma fresquinha, só para atestar!

Pela minha parte regresso a casa com esta história na cabeça que me apresso a publicar, apenas para recordar!

Até á próxima amigos!

No adro da igreja ou noutro lugar qualquer desde que nos encontremos!!!

É bom sinal, não acham?

Então até lá!

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Canha

As Canhas são grutas escavadas nas antigas Noras ...
No acesso diário entre a aldeia e a cidade, comecei a ver construir na rotunda do antigo cruzamento do “Bolas”, um “engenho” de nora.

Assimilei esse engenho ao símbolo no brasão da nossa freguesia e comecei a rever toda a minha infantil memória de Noras e engenhos.

Por toda a freguesia da Conceição de Faro haviam Noras de um, dois e até três engenhos!

Nestas recordações uma palavra surgiu que me prende a atenção.

Na verdade esta é uma das palavras que caindo em desuso, saiu do nosso vocabulário.

Essa palavra é a “Canha”.

As “Canhas” são grutas escavadas nas antigas “Noras” .

Quando se abria uma Nora e ao fim dos vinte ou trinta metros de profundidade não se tinha a sorte de encontrar a desejada água, tentava-se encontrá-la escavando uma Canha que partindo do fundo da Nora, na horizontal, se estendia ás vezes até mais de cinquenta metros na direcção onde se julgava poder encontrá-la.

Tal estratagema umas vezes resultava outras não.

Mais tarde quando os tradicionais engenhos de alcatruzes começaram a ser substituídos por bombas de superfície, essas bombas tinham dificuldade em puxar a água a mais de 7 metros de profundidade.

Abria-se então uma Canha mais próximo do nível da água e instalava-se a bomba. Esta Canha era acedida por um buraco lateral á Nora que facilitava o acesso á bomba.

No inverno era necessário retirar a bomba antes da subida da água, voltando a recolocá-la no inicio do verão, tornando bastante útil a Canha e o seu acesso.

Outra solução surgiu quando se começou a instalar a bomba numa plataforma amovível no interior da Nora, podia-se desta forma controlar a altura da instalação.

As bombas submersíveis acabaram com o problema e actualmente através dos "Furos", vão buscar água a muitos metros de profundidade.

Volto ainda ao "Engenho" de Nora para tentar descrevê-lo tal como o recordo.

O engenho era composto por um "varal" preso a uma roda dentada colocada na horizontal que por sua vez encaixava noutra igualmente dentada colocada na vertical. O eixo da roda na vertical por sua vez ligava numa roda maior, na qual era colocada a "corda dos alcatruzes".

Esta corda de ferro, era formada por elos rectangulares com o comprimento um pouco maior que os alcatruzes.

Os alcatruzes, eram vasos rectangulares, fabricados em chapa zincada, com uma base direita que ia enganchar na corda e outra em forma semi-circular, com um pequeno orifício no fundo, a fim de facilitar a saída do ar quando entravam na água, para encher.

Um tabuleiro igualmente em chapa de zinco, para receber a água que sai dos alcatruzes está ligado através de uma "levada" ao tanque.

No inicio o engenho era movido por animais e já na parte final da sua utilização foi adaptado para funcionar ligado através de correia a motores a diesel ou eléctricos.

Ainda hoje nalguns locais da nossa freguesia se podem encontrar engenhos destes a funcionar.

A Nora era escavada á mão com o auxilio da pá e picareta. Trabalho árduo, difícil, efectuado por 4 ou 5 homens sendo que dois ficavam fora do buraco da Nora, para através de um sarilho, puxarem para fora, a terra que os outros dentro da Nora iam escavando e colocando dentro de uma caixa de madeira.

Depois de feito o buraco as paredes eram revestidas, a tijolo maciço ou pedra. A partir dos anos sessenta começou a usar-se anéis em cimento armado que com moldes em ferro eram feitos no local.

Como curiosidade diga-se que os alcatruzes que caiam da corda para o fundo da Nora, eram apanhados por um homem que a troco de alguns tostões por cada alcatruz que conseguia recuperar, mergulhava e apanhava os alcatruzes colocando-os dentro dum covo de rede, atado a uma corda, para no final os içar para fora da Nora.

Actividade perigosa tendo em conta que por vezes tinha de mergulhar a 6 ou 7 metros de profundidade, sem qualquer outro auxilio que não fosse o covo e a respectiva corda.

Um dos mergulhadores mais famosos na Conceição de Faro, foi o Hermínio Cristina, homem que passou grande parte da sua vida fazendo Noras.
Quando não tinha trabalho oferecia-se para esta tarefa a troco de algum dinheiro.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

quinta-feira, 15 de abril de 2010

A RÉGUA

"... que a mão da velha mestra usa com destreza."

Hoje, encontrei o “Chico Valagão” companheiro da escola primária. Conversámos um pouco e o Chico declarou com ar satisfeito que já estava reformado. Ganho agora mais do que ganhava quando trabalhava, justificou!
Ainda bem amigo, ainda bem, disse-lhe eu.

Separámo-nos seguindo cada um o seu caminho e de repente nem sei bem porquê, apeteceu-me voltar á escola primária da nossa aldeia.

Procurei, nos mais de cinquenta anos de memória, imaginar a velha sala de aulas. Antes passei pela pequena sala de entrada, subindo os dois ou três degraus da porta de entrada.

Entrei, percorri os poucos metros que me separam da porta da sala de aulas, até á carteira onde estive os quatro anos que cá andei.

A minha carteira está quase no fim da fila que fica em frente á porta, no sentido perpendicular a esta.

Ao lado do quadro preto, no canto oposto, imagino sentada a professora D. Maria.

A sala está cheia de rapazes dos sete aos catorze anos de idade que a “velha mestra” com a sua experiência, talha para a vida futura.

Na sua secretária, sempre visível, a temível e por todos odiada régua!

Vinte centímetros de maciça madeira que a gorda mão da mestra, usa com destreza.
Segurando-nos a mão pelas pontas dos dedos, aplica o correctivo com energia, indiferente aos gritos, gemidos, choros e protestos com que sempre recebemos tal acção.

Uma conta mal feita, uns erros a mais no ditado mal escrito ou qualquer rebeldia e vem o castigo. Reguadas! Uma, duas, três, seis, dez, uma dúzia ou até duas dúzias, segundo o código pessoal de castigos, da velha mestra.

Salvo um ou outro puxão de orelhas, é a régua que serve, para nos avivar a memória, acertar nas contas, nos ditados e meter na disciplinada ordem.

Um dia, a régua desapareceu!

A velha professora bem procurou, perguntou mas ninguém sabia de nada! A régua tinha desaparecido para alívio de todos!

Foram quase duas semanas de descanso mas para mal dos nossos pecados a professora apareceu com uma régua ainda maior!

Certa vez quando na hora do almoço brincávamos despreocupados, a professora começa a chamar-nos á medida que vai corrigindo os “ditados” que havíamos feito de manhã.

Vai aplicando os castigos conforme os erros detectados. Ao João coube-lhe vinte e quatro reguadas, tantos quantos os erros no seu ditado. A professora distribuía equitativamente uma dúzia por cada mão. As da mão direita, mais calejada, o João ainda aguentou estoicamente, mas quando chegaram as da mão esquerda não aguentou mais e gritou:
-Também o Pisco roubou a régua!!!...
A professora parou perguntando: - O quê?
O Pisco roubou a régua, repetiu o João.

A professora deixa o João poupando-o ao resto do castigo e chama de imediato o Pisco que a medo confirma o que o João havia denunciado e apanha uma valente “sova” da mestra que o deixa chorando o resto da tarde!

Na verdade a régua havia sido sorrateiramente furtada e levada na sacola, pelo Pisco com o conhecimento de quase todos que já longe da escola se juntaram para dar fim á dita, queimando-a dentro de uma cova que taparam para esconder as cinzas.

Termino esta pequena viagem ao memorial escolar infantil com alguns nomes que aqui coloco tal como me vão ocorrendo:

-Américo, Reinaldo, Pires, Brazão, Charneca, Zeca Barão, Zé da Velha, Arnaldo, Florival, Zezinho, Pancinha, Vitorino Pião, Caldeirinho, Chico Valagão, Pisco, João Batista, Flor, Alfredo, Idalecio Brazuna, Perna, Arroz Queimado, Cara de Macho, Abel Romeira, Ilidio, Filhó, Zé Antonio, Moreno, Ribeiros, Libório, Vitorino ... ... ....

Lista imcompleta por incapacidade da memória do autor, por isso, façam favor de ajudar!

domingo, 27 de setembro de 2009

BOLA DE CATCHUGO

"... Que o Padre Jorge guardava fechada á chave, num armário."


Dois dias por semana, no final das aulas, as duas senhoras esperavam-nos á saída da escola primária, para nos levarem para a sacristia onde nos ensinavam a catequese.

Os rapazes ficavam a cargo da D. Rosárinha que com muita simpatia, bondade e paciência, ia-nos ensinando os “Mandamentos da Lei de Deus” misturados com padres-nosso e ave-marias.

Para nos manter atentos, calmos e disciplinados, a promessa, quase sempre cumprida, de no final, podermos jogar com a “bola de catchugo” que o padre Jorge guardava fechada á chave, num armário.

Poder jogar um jogo de futebol, no adro da igreja, com a bola de catchugo, era o prémio da nossa assídua presença com bom comportamento, na catequese. Por isso quase desejávamos que viesse o dia da catequese, para termos de novo a bola.

O padre Jorge sabia perfeitamente o nosso interesse e usava-o em seu proveito. Sempre que necessitava de alguma colaboração dos rapazes, para qualquer tarefa, prometia-nos a bola de catchugo.
Os jogos começavam sempre com o mesmo ritual. Todos encostados á parede e os capitães de equipa iam escolhendo á vez. Assim divididos iniciávamos os jogos com um numero incerto de jogadores de cada lado.
As balizas eram marcadas com duas pedras cada ou com alguma das nossas próprias peças de roupa.

Mas as coisas nem sempre corriam bem. Ou era porque discutíamos qualquer situação do jogo e acabávamos á pancada, ou porque o padre por ter outros afazeres, retirava-nos a bola antes do tempo, causando sempre muitos protestos.

Certa vez, necessitando de ajuda para montar o arraial da festa, em honra de Nª. Senhora da Conceição, o padre Jorge, prometeu-nos mais uma vez, a bola, se o ajudássemos a colocar a gambiarra de lâmpadas que iriam iluminar o adro.

Cerca de trezentas lâmpadas que eram preciso enroscar nos casquilhos, já colocados na gambiarra que iria circundar todo o recinto.

Tentámos executar a tarefa rapidamente para ter algum tempo de sobra para jogar á bola.

Tudo estava bem encaminhado, as lâmpadas colocadas, a gambiarra já presa nos paus que a suportavam, apenas faltava prender uma das pontas.

Inesperadamente eis que surge no adro, a desejada bola de catchugo! Descuidadamente o padre Jorge deixou aberto o armário onde a guardava e um atrevido, descobrindo a bola, apressou-se a atirá-la para o meio do largo.

Ninguém mais quis saber das lâmpadas, nem da gambiarra. Quem segurava a ultima ponta largou-a, correndo para a bola.

Ouve-se um grande estrondo. Todas as lâmpadas dessa parte da gambiarra rebentam no chão!

O padre Jorge, muito irritado, corre a recolher a bola.

Acabou-se!

Grita. Não há mais bola! E não houve...


Durante mais de 3 meses não jogámos á bola, com a de catchugo!

domingo, 20 de setembro de 2009

AGOSTINHA PEIDOTA

"... nas suas mãos, vi pela primeira vez a luz do dia ..."



Na Conceição de Faro, até meados do século vinte, anos quarenta, cinquenta, os partos eram naturalmente feitos em casa.

A Agostinha “Peidota” que morava ali para os lados do Rio Seco, foi a “parteira” que ajudou a nascer muitos moços e moças desse tempo, na nossa freguesia.

Foi esta mulher que quando eu estava prestes a nascer, passou toda a noite ajudando a minha mãe, nos trabalhos de parto.

Nas suas mãos, vi pela primeira vez a luz do dia, quando pouco faltava para as oito horas da manhã.

Por esse trabalho e mais quatro ou cinco visitas posteriores que ela fez de acompanhamento á minha mãe, o meu pai pagou-lhe cerca de quinze mil réis.

Porque na aldeia e no resto da freguesia não existia qualquer médico a dar consultas, a mulher também era consultada quando surgia alguma maleita que ela prontamente tratava com benzedura e mezinha.

Por vezes, em situações mais aflitivas as pessoas deslocavam-se até á aldeia vizinha de Estói, onde existiam dois médicos a dar consultas, o Dr. Emiliano da Costa e o Dr. Gago Leiria.
Era também em Estói que se podiam adquirir os “remédios” (medicamentos) existindo igualmente duas farmácias.

Foi precisamente o doutor Emiliano da Costa que me salvou, de morrer á fome quando ainda bébé, a minha mãe a conselho da Agostinha, me alimentava apenas a água com açúcar para me tratar de uma infecção intestinal.

Tal como o ditado popular não morri da doença, ia morrendo da cura!

A Agostinha Peidota, continuou com toda a dedicação, a ajudar nos partos e dar as suas receitas, quando para tal era solicitada.

É com todo o respeito que a recordo nestas histórias da minha aldeia.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

ESCANCHADO

"... Os burros desatavam num galope desenfreado ..."

Escanchado na albarda da burra, sobre a qual já se encontravam as cangalhas com dois cântaros de barro, o balde e o funil de lata, a minha mãe mandava-me á água, com apenas 7 anos de idade.

Aproveitava a ocasião em que os meus dois vizinhos um pouco mais velhos, também iam nos seus burros buscar água, á quinta do senhor Chico Norte.


Entre a casa onde morava no sitio dos Caliços e a "Quinta Grande", onde iamos encher a água, distavam mais ou menos 2 kilometros que eram percorridos por um caminho de pedras, buracos e pó, apenas transitável por animais ou pessoas a pé.


A minha mãe desconhecia que mal se metiam ao caminho, os meus dois companheiros e vizinhos, incitavam os respectivos burros que desatavam num galope desenfreado e a minha burra respondia com igual correria.
Assustado, eu apertava a albarda entre as pernas, segurava a arreata com as duas mãos e aguentava-me como podia, em cima da burra. Pelo meio escutava as gargalhadas dos meus companheiros que estavam sempre há espera que eu caísse da burra o que nunca veio a acontecer.

Porque não tinha altura nem força, para erguer o balde cheio e despejar no funil colocado na boca do cântaro, eram os meus amigos que faziam esse serviço já encomendado pela minha mãe.

Regressávamos mais calmos porque os animais agora com o peso dos cântaros cheios de água, já não conseguiam correr.

Passados dois ou três dias tudo se repetia, era preciso voltar a ir buscar água.

Quando faltavam poucos dias para completar os 8 anos de idade, mudei de morada, vim para o sitio do Besouro e tinha a água á porta de casa.
A burra que muito trabalhou para transportar os materiais para a construção da nova casa, foi vendida, por já não ser necessária.

domingo, 26 de julho de 2009

BURROS

"Albarda, cilha, atafais, cabresto, arreata, gorpelha, cangalhas, molim ou malhim, canga ..."


Os Burros, até há pouco mais de 30 anos, eram animais importantes na vida da Conceição de Faro.

A maior parte das famílias pobres tinham obrigatoriamente o seu burro. O sacrificio financeiro que faziam, em 1950 um burro jovem custava cerca de 500 mil réis, era sobejamente compensado pelo trabalho que o animal fazia.

Animais de carga, fortes, dóceis, fáceis de lidar eram de grande préstimo nas tarefas diárias, transportando pessoas, água, alimentos e tudo o que fosse necessário.

Tal como os burros, também os seus apetrechos por falta de uso, foram caindo no esquecimento.

Albarda, cilha, atafais, cabresto, arreata, gorpelha, cangalhas, molim ou malhim, canga, desapareceram por completo do nosso vocabulário diário, sendo agora praticamente desconhecidos.

A “albarda”, o mesmo que sela mas maior, era presa pela "cilha", uma cinta de cabedal que passava sob a barriga do burro.

Os "atafais", correias de cabedal, colocados no traseiro do animal, prendiam a albarda para que não escorregasse para o pescoço.

As “cangalhas”, um apetrecho em madeira onde se transportavam cântaros, sacos com sementes, farinha, lenha, eram colocadas sobre a albarda ficando uma parte de cada lado.

A “gorpelha”, um grande saco feito de palma, era colocada sobre a albarda, formando uma bolsa de cada lado. Aqui também se transportava de tudo um pouco.


O “Cabresto”, ao qual se prendia as “arreatas” era colocado na cabeça do burro e servia para manobrar o animal.

Os burros também se atrelavam a pequenos carros de madeira, a “arados”, ao "trilho" que na eira ajudava a separar o grão dos cereais da casca e aos engenhos das “noras”, para tirar a água. Nesse caso a albarda era substituída pelo “molim ou malhim” e “canga” que lhe eram colocados no pescoço ao qual se prendiam os “varais” do carro, do arado ou do engenho. Os trilhos eram presos por cordas ou correntes de ferro ao malhim.

São várias as histórias populares, associadas aos burros que se contam. Desde os lobisomens, até outras menos próprias para contar aqui.

Esta história ouvi-a em miúdo afirmando quem a contou que era verdadeira. Não vou citar nomes de pessoas, nem de lugares, mas podia perfeitamente ter ocorrido na nossa aldeia, por onde uma vez por mês o Oleiro passava, vendendo cantaros, quartas, enfuzas, pucaros, pratos, panelas e outros utensilios de barro.

Certo dia, vindo o "Oleiro" com os seus dois burros carregados de loiça de barro para vender chega junto a uma venda-taberna. Á porta como sempre alguns clientes esperam que chegue alguém para pagar mais um copo, mas o Oleiro homem de trabalho não gosta de copos. Então um dos que estavam á porta da taberna, já sabendo que dali não ia levar nada, pensou em pregar-lhe uma "partida".
Saiu ao encontro do Oleiro perguntando-lhe: -Oh amigo posso dar um segredo a um dos seus burros?
O Oleiro despreocupado respondeu: -Pode...
O outro foi junto da cabeça do burro fingindo dizer-lhe algo, atira a ponta do cigarro ainda incandescente, para dentro da orelha do animal que imediatamente começou aos pulos e coiços, partindo a loiça toda!
O Oleiro aflito pergunta: - Oh homem, o que é que você disse ao diabo do burro?!
O outro grita: -Disse-lhe que o pai tinha morrido!...
O Oleiro novamente aflito:- Oh homem, esteja calado, esteja calado! porque o outro é irmão!

segunda-feira, 13 de julho de 2009

MANADIA

"... Juvenil grupo de maltezes ..."

Terminadas as aulas, a “malta” ficava um pouco "á manadia”, durante os três longos meses das férias de verão.

Muito novos, com os pais a trabalhar sem tem tempo para cuidar de nós, tínhamos os dias por nossa conta.

A “Escola” terminava na última semana de Junho, no mês de Julho havia exames, para aqueles que os tinham e só voltávamos ás aulas na primeira semana de Outubro.

Não era grande o juvenil grupo de "maltezes". Os nomes que recordo, para além do meu próprio, são o João Baptista, o Reinaldo, o José Silvério, os irmãos Perna, o Florival, o Ilídio, o Filhó, o Joaquim Manuel (mudo), o Abel, o José Mateus, o Marinho, o Idalécio e o João Pancinha.
Esta "malta" morava, em sítios como, Paço Branco, Meloal, Besouro e Jardina, todos pertencentes á Conceição de Faro.

Eram várias as “maltezarias” que fazíamos no verão.

Apanhar pássaros era uma delas, senão a principal, utilizando umas ratoeiras de arame e molas de aço enrolado, começávamos no inicio do verão por apanhar picanços que se perdiam por grilos e no final do verão, inicio do Outono eram os pássaros de arribação que se deixavam apanhar com “aguídas” (formigas de asas).

A pardela, o rabo-ruivo, o taralhão, o cartaxo, a felosa, etc..

Eram muitas as pequenas aves que arribavam, durante mais ou menos um mês (Setembro) mantinham-se por cá, fazendo as nossas delícias.

As fisgas sempre prontas no bolso dos calções, serviam também para com alguma sorte e pontaria, apanhar os pássaros.

Tomar banho nos “tanques” que serviam de apoio á rega das hortas, era outro dos passatempos.

Juntávamo-nos em grupo e pela força do calor ou seja na parte do dia mais quente lá estávamos dentro do tanque.
Por vezes éramos surpreendidos pelos donos dos tanques ou até pelos próprios pais que com a ameaça de uma “vara de marmeleiro” nos faziam abandonar o banho o mais rápido possível, por vezes até sem tempo para recuperar a roupa que havíamos despido. Saindo espaventados, nus, correndo pelas hortas. Escondíamo-nos. Só muito mais tarde íamos a medo buscar a roupa.

O roubo da fruta era outro passatempo preferido.

O figo, o albricoque, o pêssego, a ameixa, a pêra, a romã, a amora, eram de entre muitas, as que mais nos interessavam.
Conhecendo as hortas a palmo, sabíamos exactamente onde estava a melhor e mais apetitosa fruta.
Éramos os primeiros e mais assíduos clientes, o que nos valia por vezes umas boas corridas dos donos, com gritos de “grandes malandros” !

As melancias que pelo toque ainda não sabíamos avaliar se estavam ou não maduras era preciso “calar”, isto é, fazer um pequeno corte na casca para ver. Com esta acção, caso não estivesse madura, estragávamos a fruta. Prudentemente voltávamos o corte para o solo e a coisa só era descoberta quando a melancia era colhida.

O dono começava a apanhar as melancias e descobria as imprudentes “calas”que naturalmente estragavam as melancias.

Resultado. Queixa em casa e uma tareia dos pais.

Deste modo, o castigo vinha tarde mas não faltava!

O futebol fazia também parte das nossas férias, disputando renhidos jogos quer em plena estrada empoeirada ou em qualquer restolho disponível. Calçados de alpercatas ou sandálias, era na maioria das vezes descalços que jogávamos para não ter de ouvir ou até mesmo apanhar dos nossos pais por estragarmos o calçado!

E assim "á manadia" passavam as nossas longas férias de verão!