"... arriscada coreografia de gestos e fogo..."
As cartilhas eram artefactos de fogo de artificio, em tudo iguais aos foguetes conhecidos como morteiros, isto é, com um rastilho maior e uma única bomba.
A diferença é que em vez da cana ou vara que ajuda a direccionar o foguete para o ar, tinham um taco de madeira que as obrigava a rebentar no chão ou ocasionalmente no ar se não eram largadas a tempo.
Assim, eram arremessadas á mão para este ou aquele lugar, ficando a revoltear no chão, até rebentar.
Por vezes, algum arremessador mais malicioso retirava-lhes o taco e a cartilha tornava-se perigosa porque não se mantinha junto ao chão, serpentando quer pelo chão quer pelo ar, resultando maior perigo para as pessoas por ser imprevisivel o local onde iria rebentar.
Usadas para festejar a noite da véspera de S. João, até quase ao final do século XX, dada a sua perigosidade, acabou por ser interditado o seu fabrico e consequente uso.
Na nossa freguesia de Conceição de Faro, eram famosos os combates de cartilhas de Bela Curral que ocorreram até meados do século passado.
O grupo de Bela Curral tinha como oponente o grupo de Pechão e a coisa era renhida até um dos grupos desistir normalmente por falta de cartilhas.
A festa começava no "mastro" que se fazia nas traseiras do famoso baile de Bela Curral, no armazém do José Bárbara e já depois da meia-noite quando o baile terminava, dava-se então o combate de cartilhas, em plena estrada.
Certa vez, os homens das cartilhas resolveram terminar um pouco mais cedo com o baile, arremessando duas cartilhas para o interior do "mastro", o que fez com que toda a gente saísse apressadamente no meio do maior alvoroço e sobressalto.
Cá fora, os homens davam inicio ao combate, exibindo-se com o manuseamento simultâneo de duas cartilhas, uma em cada mão, que depois arremessavam na direcção uns dos outros.
Um dos maiores entusiastas das cartilhas de Bela Curral, era o Ti Casimiro que durante todo o ano amealhava o dinheiro que podia, para no S. João, comprar nada mais menos que um grande saco de cartilhas.
O manuseamento das cartilhas carecia de alguma coragem e perícia.
Assim, como a mecha demorava alguns segundos a arder até se dar o rebentamento, os homens exibiam as suas habilidades segurando no taco, ao mesmo tempo que revolteavam a cartilha á sua volta, numa arriscada coreografia de gestos e fogo, só a soltando, no ultimo segundo antes do rebentamento.
Por vezes sucedia que por a mecha arder um pouco mais rápido que o calculado pelo lançador, a cartilha rebentava ainda na sua mão.
Se a cartilha estava correctamente segura pelo taco, não havia grande problema para além de alguns pelos da mão e braço chamuscados.
Pelo contrário, se o utilizador ignorava as regras elementares de segurança, não segurando apenas no taco e a cartilha rebentava na sua mão, dava-se o acidente, esfacelando mão e dedos.
Raras não eram as vezes que os próprios tacos das cartilhas atingiam quem estivesse por perto na altura do rebentamento, causando alguns ferimentos.
Estoi, foi a freguesia do concelho de Faro, onde esta tradição das cartilhas pelo S. João, perdurou por mais tempo, só terminando há bem poucos anos, após a completa interdição de fabrico e venda das cartilhas.
Eram verdadeiras multidões que na noite de véspera de S. João se juntava em Estoi, para assistir ao famoso combate de cartilhas.
Também famosos eram os combates de lançamento de cartilhas realizados na noite de S.João na esplanada dos extintos Café e Mercearia Aliança. O sr José Pedro da Silva proprietário destes estabelecimentos era um entusiasta, experiente e exímio lançador de cartilhas, e reunia nessa noite á sua volta a fina flor da sociedade farense de lançadores ou simplesmente apreciadores.
ResponderEliminarDe recordação em recordação, também me lembro de assistir a combates de cartilhas, no campo de futebol do Farense, em S.Luis.
ResponderEliminarCriavam-se dois muros com fardos de palha, no próprio terreno de jogo, na altura pelado e atrás de cada um resguardava-se um grupo.
A assistência colocava-se na bancada.