"Os Guardas de pau ..."
Freguesia rural, Conceição de Faro vive das sementeiras quer de sequeiro, onde não há água, quer de regadio, nas hortas onde a água é abundante.
As zonas mais altas da freguesia, sítios do Outeiro, Laranjeiro, Chaveca, Caliços, Ferradeira, Pão Branco, Chão de Cevada, Torre de Natal e Bela Curral, não existe água, são de “sequeiro”.
O sequeiro cultiva-se aproveitando as chuvas do inverno e da primavera, trigo, cevada, centeio, aveia, fava, griséu, ervilha, grão-de-bico.
Colhem-se das árvores frutos como amêndoas, alfarrobas, azeitonas, ameixas, figos, romãs e uvas.
Criam-se galinhas, coelhos, pombos, ovelhas, cabras e porcos.
Utilizam-se para os trabalhos da lavoura e de transportes, animais como, burros, mulas e éguas. Os cães ajudam na guarda das casas e na caça. Os gatos dão caça aos ratos.
Das colmeias retiram-se os favos e cresta-se o mel aproveitando-se também a cera.
As casas muito simples, cujas paredes são fabricadas em pedra sílex ou caliço (calcário), assentes com uma mistura amassada de cal, areia, água, com a qual são igualmente rebocadas.
É com a cal que são caiadas (pintadas) de branco, quer no interior quer no exterior
O telhado é feito de esteira de cana, coberta no exterior por telha de barro em forma de canudo.
O pavimento é revestido de ladrilho rectangular fabricado igualmente de barro.
A principal divisão é a “casa de fora” ou seja a sala de entrada na casa.
Sendo a maior divisão da casa, é na “casa de fora” que se fazem as festas de família e até se velam os mortos antes de irem para a igreja.
É também na "casa de fora" que á noite, ao serão, se fazem algumas tarefas do dia a dia da família, como sejam o tratamento das roupas, a escolha e separação de alguns frutos secos, etc..
Nesta sala, varias portas dão acesso a outras tantas divisões, como quartos e cozinha.
As refeições das pessoas da casa são tomadas na cozinha. Quando envolvem mais pessoas tomam-se na “casa de fora”.
Encostados á parede frontal exterior da casa, existem poiais de pedra onde nos podemos sentar.
O forno de pão existe em quase todas as casas. Feito igualmente de caliço, massa de cal e areia, leva uma abobada feita em tijolo de barro maciço (tijolo de burro)coberto com cascas de berbigão, o que acontece também ao solo, antes de ser revestido a ladrilho de barro.
Na frente, a porta de ferro, tapa a entrada em tijolo de burro. Atrás um respiradouro que se tapa e destapa conforme os casos, a que chamamos “o ouvido”.
A cabana do gado ou seja o local onde á noite se recolhem todos os animais, fica junto á casa, existindo até nalguns casos uma porta de ligação com a “casa de fora”.
Os porcos têm também junto á casa uma instalação própria a que chamamos pocilga ou chiqueiro.
Nas casas um pouco mais ricas, os tectos em vez de canas, são feitos de abobada de tijolo de burro e em frente á casa existe uma cisterna que recolhe a água dos telhados no inverno para se consumir no verão.
A cisterna está envolta por um pátio e próximo da casa existe a eira onde se debulham e tratam os cereais.
O figo seca-se em esteiras, no pátio, na eira ou nas açoteias.
A vida corre devagar. Não existe automóveis, as pessoas movimentam-se a pé, a cavalo do burro, da mula ou nos respectivos carros puxados por estes animais.
Aqui e ali uma ou outra bicicleta a pedal, não há dinheiro, nem utilidade para as motorizadas que começam a aparecer.
A protecção das colheitas, é feita pela Guarda Nacional Republicana em patrulhamentos apeados ou cavalo que devido á escassez de meios quase não existe.
São os “guardas de pau” que desempenham a tarefa.
Estes homens armados com um “pau”, dispõem-se a vigiar e guardar as colheitas, (amêndoas, alfarrobas, figos e uvas) em nome e mandato dos legítimos proprietários, evitando que sejam roubadas.
Em troca recebem uma pequena retribuição monetária.
Anualmente constituiem-se em grupo de três, actuando por vezes sozinhos, mas a maioria das vezes é o grupo completo que efectua a patrulha.
Nomes como os de Joaquim Caco, Farrajota, Severiano e Pala de Mota, são os que me ocorrem, por serem os que mais vezes desempenharam essa tarefa.
Não sou algarvia, mas por todo este Portugal há relatos deste género. Alturas em que parecia que o tempo esperava...
ResponderEliminarObrigada pela descrição.
CC