sábado, 11 de outubro de 2014

ATAMANCAR


Nós, que nascemos na primeira metade do século passado, sabemos perfeitamente o significado do "atamancar", que é o de "nos irmos governando ou remediando com o pouco temos".

Os nossos pais e avós que viveram as dificuldades dessa época ensinaram-nos que devíamos "atamancar" e foi o que fizemos:

  • Atamancávamos o almoço e ou o jantar, quando comíamos apenas um bocado de pão duro, com umas azeitonas ou um pedaço de toucinho de porco que tínhamos na salgadeira, ou uns figos secos ou torrados que guardávamos na arca;
  • Atamancávamos o calçado quando apesar de rotos ou quase sem sola, ainda usávamos as botas, os sapatos ou as alpercatas;
  • Atamancávamos na roupa que se ia remendando e se vestia até já não se poder remendar mais;
  • Atamancávamos na doença fazendo umas "mézinhas caseiras", deixando a visita ao médico para os casos já em desespero;
  • Em resumo passámos muitos anos da nossa vida a "atamancar".
O problema é que desejosos de lhes dar uma vida melhor que a nossa, educámos os nossos filhos e netos, de forma diferente da nossa e agora eles não sabem sequer o significado desta triste palavra.

Naturalmente que não sinto saudades dessa época, nem tão pouco venho fazer a apologia dos "pobrezinhos" mas lá que dava geito saber "atamancar" não há dúvida nenhuma que dava.

Tudo isto a propósito das noticias que todos os dias ouvimos, das dificuldades de muitas pessoas ou famílias porque adquiriram coisas que até já tinham mas que resolveram mudar para um modelo mais recente, muitas vezes aliciados pela publicidade do "compre agora e pague depois".

Bom, eu que apenas queria alinhar algumas palavras sobre "atamancar" acabei excedendo-me um pouco, resvalando no final para uma escrita um pouco mais  acinzentada.

Espero que não me levem a mal.

Desejo um óptimo fim de semana para todos!!!



quinta-feira, 2 de outubro de 2014

FIGOS ALGARVIOS VI


"...  as passas do Algarve"


É o Algarve uma região rica em figueiras, podendo dizer-se que são árvores próprias desta zona do país porque aqui encontram um clima mediterrânico e terrenos propícios, ao seu desenvolvimento natural.

Quem não as vê crescer até num valado de pedras ou nos lugares mais agrestes ou áridos?

Quantas vezes não são arrancadas ou partidas e o que fica do tronco ou bocados das raízes ainda rebenta para novamente  formar uma nova árvore?

Pode dizer-se que temos uma árvore e um fruto que sempre abundaram no Algarve.

A influência desta árvore através dos tempos foi tão grande que existem até várias localidades com o seu nome.

No entanto, o facto de não haver uma satisfação plena do rendimento, originou que muitos camponeses as fossem substituindo por outras mais rendosas.

A plantação das figueiras, a apanha e tratamento dos figos, nunca passaram duma actividade da agricultura tradicional e de preparação artesanal.
O figo era para a fartura da casa e o principal objectivo foi o de garantir a presença da fruta, quer madura quer seca, durante o ano, na casa do próprio lavrador.

O aproveitamento do figo, quer em maduro quer em seco (ou passa), terá sido considerado de plano inferior, não havendo uma verdadeira valorização no campo comercial ou industrial.

Durante a maior parte do ano, o agricultor dedicava pouca atenção ás figueiras, no entanto algumas tarefas tinham obrigatoriamente de ser efectuadas:
  1. Antes do figo amadurecer raspavam-se as ervas debaixo das árvores, fazendo uma espécie de eira a que chamavam “o solo”; 
  2. Os figos maduros simplesmente comiam-se frescos e à medida que amadureciam, caíam e iam secando no solo,  lá se conservando sem grandes cuidados até se fazer o “cambo”; 
  3. Os "cambos" consistiam em varejar e apanhar os figos (já em fase de secagem), para cestos que se iam despejando em canastras para transportar; 
  4. Eram depois deitados em esteiras de canas, para secar ao sol na eira ou protegidos por um “almeixar” que eram as simples esteiras rodeadas de feixes de lenha, para evitar poeiras e o calar mais forte do sol;
  5. Quando secos eram lavados em grandes alguidares de barro e de novo postos ao sol para secar;
  6. Seguia-se a escolha do figo flor e do mais pequeno;
  7. A denominada flor do figo (o de maior tamanho e melhor aspecto), era “enceirada” em caixotes, misturada com funcho, folhas de figueira, de aroeira, tomilho e muitas vezes ervas-doces ou canela. 
Os mais pequenos, além da engorda de porcos e destilação de aguardente, também eram torrados no forno, sendo um óptimo entretimento roer um figuinho torrado.

Foi do “enceirar” dos figos que eram bem calcados e esmagados que nasceram as bem conhecidas “passas do Algarve” que infelizmente são mais conhecidas pelo esmagamento para a transformação, do que pelo seu real valor.

Nunca as passas alcançaram uma projecção internacional que valorizasse o figo e desse origem a explorações rendíveis, evitando o extermínio das figueiras.

Contudo, é das melhores frutas não só pelo óptimo sabor como pelas ricas propriedades que contém, sendo várias as qualidades de figos conhecidas no Algarve, tais como:
  •  Uma primeira época em Junho, onde aparece o “lampo”, o “cachopeiro” e o “bruto”. 
  •  Uma segunda época em Setembro, o lampo já de tamanho mais pequeno é conhecido por “vindimo” mas além deste há o “castelhano”, o “rinho”, o “coito”, o “bacalar”, o “S. Luís”, o da “mina”, o “dois à folha”, a “bêbera”, o “pardinho”, etc.
  • O “toca” com que se faz uma espécie de colar feito de figos bravos que se coloca nas figueiras cujos figos têm dificuldade em amadurecer, para ajudar a atrair os insectos que fazem a fecundação dos figos.
As folhas das figueiras como árvores de folha caduca antes de caírem são aproveitadas para a alimentação dos animais.

(Adaptação de um texto de Ludgero Urbano)

sábado, 27 de setembro de 2014

MEDIDA DO PAUZINHO



Hoje de manhã, quando numa sapataria experimentava sapatos para calçar no inverno, o pensamento recuou alguns anos, levando-me até à minha infância.

Nesse tempo o meu pai quando queria comprar-me algum par de calçado, levava simplesmente um pequeno pau com a medida do meu pé e era esse o tamanho do sapato, bota ou sandália que comprava.

Por vezes, em vez do pauzinho levava um pequeno cordel, mas a medida tirada com o pau, dava mais certo.

O mesmo servia para levar ao sapateiro e encomendar o calçado que o homem fazia regulando-se pela medida do pauzinho.

Habituado a andar de pé descalço muito dificilmente os meus pés aceitavam calçado.

Recordo-me do esforço e sacrifício que foi calçar as minhas primeiras botas que o meu pai comprou para eu poder ir à escola primária.

À cautela ele havia comprado umas botas de tamanho um pouco acima do meu para que me servissem durante mais que um ano, mesmo que o pé crescesse.

Eu só as aguentava calçadas enquanto ia e estava na escola, porque à saída descalçava-as imediatamente pendurando-as ás costas.

Felizmente perdeu-se este costume da medida do pauzinho que pelo menos na nossa aldeia era uso, mas para que não se perca a memória, recordo-o nestas breves linhas.

Um bom fim de semana para todos!